CRESCENDO EM MENOS

Antes crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno. 1 Pedro 3:18.

crescendo em menosCrescendo em menos não significa crescer menos ou ter um crescimento menor. Estou tocando, com este tema, no avanço em redução, sem qualquer tentativa de atear fogo na tendência ao acréscimo. Aqui, não pretendo abordar o aumento da montanha, mas o alargamento do buraco. Crescer em menos é evoluir na vacuidade ou esvaziamento de si próprio.

O ser humano vive cheio de si e continuamente pensando em crescer cada vez mais, em mais de si mesmo. A ambição do pecado propõe tornar a pessoa sempre mais, melhor e maior. Somos uma raça infectada pelo germe da grandeza, importância e notoriedade. Crescer em menos é algo contrário à nossa índole. Nós não temos a disposição das raízes de se desenvolverem para baixo e às escondidas, já que apreciamos escalar às alturas como as hastes em busca da culminância. Quem cresce ruma aos píncaros da glória não suporta o anonimato e a vida de solitude. O ostracismo revela a angústia existencial dos ensimesmados. O profeta Oséias, usando uma metáfora, fala de uma espécie de planta estranha, nestes termos:Serei para Israel como orvalho, ele florescerá como lírio, e lançará as suas raízes como o cedro do Líbano. Oséias 14:5. Esse arbusto tenro como a lilácea tem raízes profundas como uma árvore enorme e frondosa. O Israel de Deus é um vegetal esquisito, pequeno e frágil por fora, mas com raízes gigantescas que descem às profundezas da terra.

Crescer para baixo, ocultamente, é uma das evidências da vida espiritual autêntica. No reino de Deus não há passarelas para exibições, nem vitrines para exposições dos produtos. A vida secreta dos filhos de Deus é a grande demonstração da realidade espiritual.

O incremento no terreno da graça não conta com os méritos humanos. Quando alguém cresce em graça, significa que progrediu na compreensão dos seus deméritos. Quanto mais a graça floresce na alma do filho de Deus, menos dignidade se confirma na sua vida diária. O salvo pela graça jamais ostentará um atestado de bons antecedentes ou o menor currículo vitae.

O apóstolo Paulo aprendeu, com duras penas, que o crescimento na graça passa pela extenuação. Crescer em fraqueza é desenvolver-se em graça. A graça está para fraqueza, assim como o alimento está para a fome. Foi deste modo que ele ouviu do Senhor: a minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. 2 Coríntios 12:9.

A fraqueza extrema é a abertura para a dependência total do crente em Cristo. No reino da graça o enfraquecimento é a via do poder divino. Nós só dependeremos completamente de Deus, se cada um chegar, de fato, ao fim de si mesmo. Quanto menos independência pessoal, mais dependência sobrenatural do Senhor. Quanto mais fraqueza humana, mais força divina.

Paulo foi ainda mais longe quando se deliciava na debilidade e fazia festa com a sua atonia pessoal. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então é que sou forte. 2 Coríntios 12:10. Vemos aqui, com nitidez, que o crescimento na fragilidade humana é a ampliação do poder de Deus. A fraqueza humana escancara as portas da onipotência divina.

A lei do crescimento no reino de Deus mostra que crescer em menos de nós é crescer em mais de Cristo. No evangelho, a plenitude do Espírito Santo é o resultado dos efeitos da cruz de Cristo, que promove a desocupação do egoísmo em nosso íntimo. O esvaziamento precede o enchimento. Na matemática celestial o cálculo de subtração vem antes da conta de adição. Não vivo eu, mas Cristo é a primeira operação da aritmética santa no acordo da Igreja de Deus.

João Batista, um primo mais velho de Jesus, entendeu claramente que o crescimento espiritual é de cima para baixo. Crescer no conhecimento de Cristo é decrescer em nossa estimativa particular. Conhecer mais de Cristo é minguar cada vez mais em nossa avaliação. Foi assim que João concluiu: convém que ele cresça e que eu diminua. João 3:30.

A vida cristã não é uma biografia de emergente que gosta de badalação, aprecia as luzes dos holofotes e ama ser colunável. Ser cristão é ser menos diante da opinião pública. É preciso primeiro drenar esse tumor inchado da imagem insuspeita e de valor subjetivo de nossa alma, para que a identidade de Cristo se manifeste docemente em nosso homem interior.

Os filhos de Deus vivem na presença de Deus e na dependência de Deus. Andrew Murray foi categórico ao afirmar: “ter vida em si mesmo é prerrogativa exclusiva de Deus e do seu Filho… a mais alta honra para uma criatura é buscar vida, não em si mesma, mas em Deus”. A nossa personalidade cristã é formada pela comunicação da vida de Cristo em nosso ser, por isso não carecemos da consideração e aceitação social para demonstrar quem somos.

Todo aquele que foi aceito incondicionalmente pelo Pai através do Filho e de sua obra na cruz é uma nova criatura que tem sua identidade permanente como filho de Deus, e que não precisa da anuência pública para ganhar reconhecimento na sociedade. A vida secreta da família divina é o estilo mais adequado para a convivência do povo de Deus.

A invisibilidade pública e a visibilidade confidencial na presença do Pai é o sinal de trânsito seguro da intimidade espiritual. O cristão anda na luz do Senhor, mas fora do olhar dos expectadores humanos. Jesus foi muito aberto com relação a este assunto: guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de sedes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.Mateus 6:1.

Se quisermos crescer na vida cristã, devemos crescer em menos diante da opinião dos outros. O caminho do peregrino será diretamente iluminado por cima, todavia as laterais estarão sempre cobertas por véus. Jesus desvendou a prática da contribuição, oração e jejum vedando aos homens a informação do acontecimento. Veja, por exemplo, como ele resume a questão da oração. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.Mateus 6:6.

A fé cristã não é um espetáculo que requer platéia. O verdadeiro culto não é um show que exige expectadores. Nós não precisamos de relatório para ser aprovado diante do Senhor. Como insistia Murray: “não há outro caminho que leve à vida verdadeira – o permanecer em Cristo – que não seja aquele que nosso Senhor trilhou antes de nós: o caminho da morte, isto é, o caminho da cruz”. Sem a morte desta vida exibida não haverá cristianismo verdadeiro. O ego precisa sair de cena, mas não existe outro instrumento de convencimento senão o caminho da cruz. Só a morte de Cristo na cruz e a morte do pecador com Cristo podem dissuadir o velho homem de sua disposição arrogante de se exibir diante do auditório. A vida em secreto é a atitude apropriada e ajuizada da nova criatura que teve o seu caráter transformado pelos efeitos da cruz de Cristo e que, no dia a dia, apresenta as marcas desta cruz, levando o morrer de Jesus como evidência de sua fé em Cristo.

Crescer em menos é crescer em direção ao pó. A humildade é o humano rumo ao húmus. Quando reconhecemos que somos apenas areia movediça sem qualquer vida em si mesma, ajoelhamos reverentes diante da majestosa soberania de Deus. Antes, ele dá maior graça, pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Tiago 4:6.

Humildade não é rebaixamento em busca de exaltação. Sabemos que muitos se maquiam com os traços da humildade para receberem as migalhas da louvação. Contudo, “a humildade é aquela virtude que, quando você percebe que a tem, já a perdeu”. Só Jesus foi realmente humilde de coração e somente através dele podemos ganhar uma humildade sem ostentação ou necessidade de apreço. Crescer em humildade é crescer em isenção de cuidados especiais, na ausência de interesses particulares ou prestígios reservados. Agostinho dizia: “para os que desejam aprender os caminhos de Deus, a humildade é a primeira, a segunda e a terceira lições”. Mas é bom lembrar que não há graduação, nem formatura em matéria de humildade. Nenhum mortal pode se considerar humilde, sem correr o risco da arrogância espiritual.

O crescimento em humildade e submissão vem sempre crescendo em menos de nós e mais de Cristo, sem que seja necessário demonstrar que somos menos, nem que Cristo é mais. A vida equilibrada da fé adota a postura sensata de reconhecer a nossa insignificância, sem aviltamento, bem como a nossa dependência total do Senhor, sem misticismo ou fanatismo. Temo este espiritualismo que aniquila a individualidade e mistifica o relacionamento com Deus. Menos de nós e mais de Cristo é a expressão saudável no crescimento da eterna salvação de Deus, que nos transforma em seus filhos, destituídos desta carência de importância humana, uma vez que fomos revestidos da importância plena da vida de Cristo, porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Colossenses 3:3. Aleluia.

Glenio Fonseca Paranaguá 
16 de dezembro de 2007

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