A CRUZ NA TESTA?

cinza“Os que passavam lançavam-lhe insultos, balançando a cabeça e dizendo: “Ah! Você que destrói o templo e o edifica em três dias, desça da cruz e salve-se a si mesmo!” Da mesma forma, os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei zombavam dele entre si, dizendo: “Salvou os outros, mas não é capaz de salvar-se a si mesmo. O Cristo, o Rei de Israel… Desça da cruz, para que vejamos e creiamos nele!” Os que foram crucificados com ele também o insultavam.” – Marcos 15:29-32(NVI).

Urutu-cruzeiro é um ofídio venenosíssimo, da família dos crotalídeos que apresenta uma mancha cruciforme na cabeça, que lhe garante este nome. O formato da cruz na fronte da serpente despertou a nossa atenção para o fato intelectual da mensagem da cruz. Ter a doutrina da cruz na cabeça não resolve nada. Muitos de nós, cristãos, falamos corretamente desta palavra da cruz, mas ela não tem qualquer significado real em nossas vidas. Uma coisa é saber a teologia da cruz, outra bem diferente, é conhecer a experiência real da cruz em nosso viver diário. A mensagem da cruz não é uma touca de dormir, mas um estilo de vida.

O veneno desta serpente não altera o seu poder mortífero pelo fato dela ostentar uma cruz em sua cabeça. Do mesmo modo, a linguagem peçonhenta da boca maledicente não sofre a menor variação com a doutrina intelectual da teologia da cruz. A cruz na testa não atesta qualquer transformação no coração. Pregar a cruz não é a mesma coisa de estar pregado na cruz. Falar sobre a cruz nada tem a ver com falar na cruz, da obra da cruz. A mensagem do cristianismo legítimo é proclamada por um crucificado. Não se trata de uma dramatização teatral, mas de uma experiência de fé genuína. Somente os que já morreram na cruz com Cristo podem falar com convicção da verdadeira vida de Cristo.

Os espectadores da crucificação de Jesus procuraram por todos os meios tirá-lo da cruz. Eles não podiam aceitar a ideia do Cristo sendo crucificado. Por isso, insultavam-no com seus discursos para fazê-lo descer da cruz. Não era possível um Cristo estigmatizado com as marcas da cruz. A lógica não pode conceber o autor da vida sendo refém da morte. Precisavam de um sinal poderoso: Desça da cruz para que vejamos e creiamos nele. Remover Jesus da cruz foi a tática mais ardilosa do inferno. Satanás promoveu a morte do infante nos tempos de Herodes e fomentou as multidões para jogar Jesus do alto do monte em Nazaré. Agora ele incentivava os assistentes do Calvário para desaconselhá-lo em permanecer na cruz. A ideia da cruz é contrária ao projeto do pecado. Quem quer subir na plataforma do poder não concorda com o esvaziamento da cruz.

A cruz é um instrumento de escárnio. Ela fala do que é vergonhoso. O seu apelo fica ressaltando o castigo merecido de um réu indigno. A cruz é o martírio do vil, é a sentença do infame, é a pena justa de quem é torpe. Nela se cravam os que ultrajavam os princípios da moral e são eliminados os desprezíveis membros da baixeza humana. Os que ficam expostos nos braços da cruz são merecedores de todo deboche. Este é o lugar da crapulagem que exige zombaria. Nenhum homem digno deve ser alvo de um espetáculo tão vexatório.

A cruz é o lugar do arruinado, do corrupto, do bandido, do canalha, do mesquinho, do perverso, do arrogante, do presunçoso, do orgulhoso, do exibido, do pecador em todas as suas nuanças. Sua mensagem significa a punição radical desta corja de infiéis que pretende ocupar o posto da mais alta importância. Usando a camuflagem mais sutil, o ser humano procura atrair atenção para os seus sentimentos de artista. No jogo do fingimento ele quer o palco. O homem não quer a cruz. Mas todo sentimento de superioridade precisa ser derrubado, e todo sentimento de inferioridade precisa ser preenchido. “Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados.”Isaías 40:04. A cruz é a patrola de Deus que faz a terraplanagem dos corações elevados e dos corações deprimidos. Ela desbasta a altivez e completa as depressões.

A vítima da cruz não sofre mais de vitimismo. Não há mais lugar para os grandes nem encosto para os rebaixados. A obra da cruz erradica os jogos manipuladores que valorizam as táticas do dominador e as chantagens do dominado. Na igreja onde a moto-niveladora da cruz passou não há mais lugar de destaque nem sintoma de coitado. Os discípulos de Jesus Cristo que trazem as marcas da cruz no coração não valorizam o êxito das montanhas nem reclamam com o isolamento dos vales. Por isso, todo o empenho do Maligno é para fazer Jesus descer da cruz. Alguém me sussurrou outro dia: Meu velho homem desceu da cruz. Mas, ele não foi crucificado com Cristo? Quando foi que Cristo desceu da cruz? Precisamos crer nas verdades da Palavra. Jesus foi tirado da cruz depois de sua morte. A cruz não é um mero estágio de tortura, é, antes, um lugar em que o sofrimento é para a morte. O produto da cruz não é o martírio, mas a morte. A dor da cruz é conseqüência, não resultado final. Jesus não desceu da cruz, porque seu objetivo era a morte do pecador, que ele representava naquele momento. Ele havia nos atraído a si mesmo, para nos fazer integrantes daquela morte e, deste modo, nos levar a morrer juntamente com ele. “Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram.” – II Coríntios 05:14 (NVI). A cruz é o atestado de óbito do miserável pecador.

O discípulo de Jesus não é aquele que meramente declara a sua morte com Cristo, mas aquele que confessa e crê realmente em sua morte na cruz juntamente com Cristo, fundamentado na Palavra de Deus. A experiência da cruz se atualiza diariamente no viver do cristão. Há uma reedição de fé a cada momento. Não se trata de simples teoria, mas da internalização desta verdade realizada pelo Espírito da verdade. Não é uma doutrina que aprendemos com a nossa mente, mas uma verdade que nos é revelada graciosamente pelo Espírito Santo. Jesus mostrou que o seu discípulo é alguém que responde com objetividade, na base da cruz, o que a Palavra de Deus afirma. Jesus dizia a todos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.” – Lucas 09:23 (NVI). A cruz do discípulo é a mesma cruz de Cristo. A cruz de Cristo é a nossa cruz. Como já vimos, a cruz não é simples meio de tortura, mas de morte. Tomar diariamente a minha cruz é reconhecer a minha morte juntamente com Cristo, como experiência de fé.

E, como dizia Santo Agostinho, a fé consiste em crermos no que não vemos; e, como recompensa, veremos aquilo em que cremos. Os observadores da crucificação de Jesus queriam que ele descesse da cruz a fim de poderem ver e depois crer. Mas a realidade espiritual tem outra versão. O povo protesta, mas Jesus contesta. A fé não se baseia na visão. Jesus mostrou a Marta, no episódio da ressuscitação de Lázaro, que as bases da fé diferem do sistema científico. Disse-lhe Jesus: “Não lhe falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?” – João 11:40 (NVI). Segundo Jesus, a fé antecede a visão. Primeiro se crê e depois se constata.

Jesus reafirmou o seu princípio de fé bíblica para o duvidoso Tomé com estas palavras precisas: “Porque você me viu, você creu? Bem-aventurados os que não viram e creram.” – João 20:29 (NVI). O gozo espiritual consiste em firmar-se de modo inabalável na certeza da verdade divina. Ninguém pode produzir uma experiência espiritual duradoura fora dos limites verdadeiros da Palavra de Deus. De acordo com Jesus, o seu discípulo é alguém que ficou marcado existencialmente com os contornos da cruz em seu caráter. “E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo.” – Lucas 14:27 (NVI). A cruz não é uma enfermidade física nem um fardo em nossa vida.

A cruz não é um sinal na testa, nem joia decorativa ou uma profunda teologia. Ela é uma experiência de fé,a porta da morte para a vida, a apólice da vitória, o título da santidade e o caminho para o trono. Como disse Paul Holdcraft, a cruz é um programa de vida e não apenas o centro da Teologia. Não basta a mitra com uma cruz desenhada nem a mensagem da cruz desgranhada, mas uma vida em que cruz desdenhada já esculpiu o caráter de Cristo. “Estou crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé do filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” – Gálatas 02:20.

Glenio Fonseca Paranaguá

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