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DA MORDOMIA CRISTÃ

img_81645-185Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Mateus 6:24.

A impossibilidade de se viver para Deus e pro dinheiro é vista em termos claros, aqui, no sentido de senhores e escravos. Ninguém pode servir a dois chefes diferentes ao mesmo tempo. Um, inevitavelmente, terá precedência em sua lealdade e obediência.

Deus e Mamom apresentam reivindicações díspares e rivais e a escolha de um deve ser feita antes de tudo. Colocar Deus em 1º lugar é rejeitar as regras do materialismo, agora, viver movido às custas do temporal é recusar a afirmação de que Deus é o soberano.

Se recebemos Jesus como Senhor na nossa vida, não há lugar para o dinheiro ser nosso patrão. Neste caso a única alternativa, face às riquezas, é de pura mordomia. É só pensar assim: ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam, Salmos 24:1, que logo nos percebemos como simples mordomos. Portanto, “a verdade fundamental da mordomia é que tudo o que tocamos pertence a Deus”. Deus é o dono e o Senhor de tudo o que pomos a mão.

William James Dawson afirmou: “Não é por acaso que 17 das 36 parábolas do Senhor tratam de propriedades e mordomia.” W. H. Greaves entendeu: – mordomia é o que o homem faz depois de dizer: ‘creio’. Ninguém tem o melhor conceito de mordomia do que uma nova criatura, uma vez que, “a má mordomia resulta em nada menos do que reter de Deus aquilo que lhe pertence.” Tudo o que somos e temos é do Senhor.

“Quer gostemos quer não, estamos limitados aos ensinos da Bíblia para nossa informação acerca de todas as doutrinas da fé cristã, e isto inclui a doutrina da mordomia.” E como ensinou Samuel Chadwick – “estou convencido de que não há assunto sobre o qual a consciência cristã esteja mais mal-informada do que o da contribuição.”

Alguém relutante com a participação em contribuir na igreja, indagou-me: – o dízimo é um imposto tributado por um sistema de recompensas? Você dá um tanto pra barganhar e receber muito mais… me parece, disse ele, que isto é coisa de aproveitador.

Primeiro, disse eu: Deus não precisa de coisa alguma. Deus não precisa de nada, Ele se basta, não precisa de dinheiro, nem o dízimo foi uma exigência sua. A primeira vez que o dízimo é mencionado na Bíblia foi num gesto de gratidão, num ato de adoração.

Quando abrimos mão de tudo o que ‘somos’ e de tudo o que ‘temos’, entregamos a Deus simplesmente o que lhe pertence. O que investimos na vida piedosa ou em caridade não é um tributo pago a um tirano, mas uma resposta de gratidão ao nosso Redentor. O dízimo não é nem propina para um benefício, nem uma gorjeta por um serviço prestado.

Melquisedeque, rei de Salém, era sacerdote do Deus Altíssimo. Ele trouxe pão e vinho e abençoou Abrão, e diz – “abençoado seja Abrão pelo Deus Altíssimo,Criador do céu e da terra. E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou em suas mãos os seus inimigos”. Então Abrão deu a Melquisedeque a décima parte de tudo que havia recuperado. Gênesis 14:18-20.

Melquisedeque abençoou Abrão, e este, por sua vez, deu ao sacerdote de Deus o dízimo de todos os seus bens que foram capturados. Em Hebreus 7, aprendemos que havia um profundo significado espiritual nessa ação. É o senso de gratidão e não de recompensa.

Abrão foi progenitor de Arão, e aquiele é visto como o primeiro representante do sacerdócio Aarônico. O fato de que Melquisedeque abençoou Abrão, isto significa que o sacerdócio de Melquisedeque é maior do que o de Arão, porque aquele que abençoa é de fato, superior àquele que é abençoado. Evidentemente, é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior.Hebreus 7:7.

Só pelo fato de Abrão ter pago o dízimo a Melquisedeque é visto aqui como uma figura do sacerdócio aarônico reconhecendo realmente a superioridade do sacerdócio de Melquisedeque, porque o menor entrega os dízimos ao maior. Embora esta disposição nunca tenha sido uma exigência de Deus, foi um gesto de profunda gratidão do adorador.

O dízimo não é um imposto requerido por Deus, pois Ele não necessita de coisa alguma. Também, não é uma gorjeta dada pelas bençãos derramadas. A gratidão não quer dizer que vamos recompensar a Deus por Ele nos ter abençoado. Não se trata de uma gratificação por um serviço prestado, mas de real gratulação pelo sublime privilégio de ser participante do Reino do Seu amor. Gratidão aqui é a matéria-prima de um amor concreto.

Também falei ainda com aquela pessoa que o dízimo nunca foi uma propina, como fazem as empreiteiras, quando querem um contrato vantajoso do governo. No Reino de Deus, o “que nos torna ricos, neste mundo, não é o que tomamos, mas sim o que damos.” Além do que, não damos para sermos ricos, damos porque somos ricos do amor.

Daí pra frente passei a abordar a mordomia cristã dum modo mais amplo. Citei este pensamento: “Pode-se argumentar que no Antigo Testamento os dízimos eram pagos e, portanto, falando especificamente, não estão na categoria de contribuição voluntária. A contribuição cristã só começa quando damos livremente mais do que o décimo.”

“O dízimo não deve ser um teto em que paramos de contribuir, mas um piso a partir do qual começamos,” afirma J. Blanchard. Se você não dá alguma coisa que Deus quer que você dê, você não a possui; ela o possui. Somos servos de quem nos possui, seja de Deus que nos libertou na liberalidade, seja do dinheiro que nos escraviza na avareza.

O apóstolo Paulo mostra como as igrejas da Macedônia contribuíam: Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos. 2 Coríntios 8:3-4.

A mordomia cristã não é uma obrigação, nem um peso. Não se trata de mero dever, mas de real prazer em ser participante da expansão do Evangelho da graça. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria. 2 Coríntios 9:7.

Já citei no estudo anterior um pensamento que diz o seguinte: mordomia não é um ato de deixar uma recompensa qualquer sobre a mesa de Deus; não é gorjeta, não é propina; é a confissão de uma dívida impagável contraída no Calvário. Quando creio, torno-me de um modo voluntário e prazeroso um mordomo dos tesouros do Senhor.

Alguém afirmou assim: “trabalhe arduamente, consuma pouco, dê muito – e tudo a Cristo.” E John Owen, no séc 16 pontuava: “não darei valor às orações, ainda que intensas e frequentes, de quem não faz as contribuições de acordo com sua capacidade.”

Deus não precisa das nossas contribuições, mas nós precisamos ser libertos da nossa avareza. Deus pôde alimentar o profeta por meio de corvos, mas nós precisamos ser livres dos corvos da ganância. Deus não precisa de coisa alguma, contudo nós precisamos inteiramente da graça de Deus para sermos desapegados das posses terrenas.

O apóstolo diz: Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. 1 Timóteo 6:10. “De quantas maldições e humilhações ficaríamos livres se o povo de Deus fosse liberto do amor ao dinheiro e contribuísse conforme as Escrituras orientam!” O uso das ‘nossas’ posses mostra quem realmente somos.

“Sem dúvida que, embora sob um princípio diferente, o homem é julgado não apenas pelo seu dinheiro no reino deste mundo, como também no reino dos céus o será com toda a certeza. O mundo se questiona: Quanto é que este indivíduo tem? Cristo pergunta: Como será que este homem usa o que tem? O mundo pensa, sobretudo, em ganhar dinheiro; Cristo, na melhor forma de vir a dá-lo. E quando um homem dá, o mundo ainda pergunta: Quanto deu? Cristo pergunta: Como deu? O mundo leva em conta o dinheiro e sua quantidade; Cristo, o homem que dá e seus motivos,” disse Andrew Murray.

Não podemos comprar o céu com dinheiro. Porém, em nossas ofertas voltadas ao céu, podemos provar e cultivar mordomia cristã no amor a Cristo, no amor aos homens e na devoção à obra de Deus. Como estamos administrando o patrimônio de Deus?

Glenio Fonseca Paranaguá

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A CRUZ NA TESTA?

cinza“Os que passavam lançavam-lhe insultos, balançando a cabeça e dizendo: “Ah! Você que destrói o templo e o edifica em três dias, desça da cruz e salve-se a si mesmo!” Da mesma forma, os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei zombavam dele entre si, dizendo: “Salvou os outros, mas não é capaz de salvar-se a si mesmo. O Cristo, o Rei de Israel… Desça da cruz, para que vejamos e creiamos nele!” Os que foram crucificados com ele também o insultavam.” – Marcos 15:29-32(NVI).

Urutu-cruzeiro é um ofídio venenosíssimo, da família dos crotalídeos que apresenta uma mancha cruciforme na cabeça, que lhe garante este nome. O formato da cruz na fronte da serpente despertou a nossa atenção para o fato intelectual da mensagem da cruz. Ter a doutrina da cruz na cabeça não resolve nada. Muitos de nós, cristãos, falamos corretamente desta palavra da cruz, mas ela não tem qualquer significado real em nossas vidas. Uma coisa é saber a teologia da cruz, outra bem diferente, é conhecer a experiência real da cruz em nosso viver diário. A mensagem da cruz não é uma touca de dormir, mas um estilo de vida.

O veneno desta serpente não altera o seu poder mortífero pelo fato dela ostentar uma cruz em sua cabeça. Do mesmo modo, a linguagem peçonhenta da boca maledicente não sofre a menor variação com a doutrina intelectual da teologia da cruz. A cruz na testa não atesta qualquer transformação no coração. Pregar a cruz não é a mesma coisa de estar pregado na cruz. Falar sobre a cruz nada tem a ver com falar na cruz, da obra da cruz. A mensagem do cristianismo legítimo é proclamada por um crucificado. Não se trata de uma dramatização teatral, mas de uma experiência de fé genuína. Somente os que já morreram na cruz com Cristo podem falar com convicção da verdadeira vida de Cristo.

Os espectadores da crucificação de Jesus procuraram por todos os meios tirá-lo da cruz. Eles não podiam aceitar a ideia do Cristo sendo crucificado. Por isso, insultavam-no com seus discursos para fazê-lo descer da cruz. Não era possível um Cristo estigmatizado com as marcas da cruz. A lógica não pode conceber o autor da vida sendo refém da morte. Precisavam de um sinal poderoso: Desça da cruz para que vejamos e creiamos nele. Remover Jesus da cruz foi a tática mais ardilosa do inferno. Satanás promoveu a morte do infante nos tempos de Herodes e fomentou as multidões para jogar Jesus do alto do monte em Nazaré. Agora ele incentivava os assistentes do Calvário para desaconselhá-lo em permanecer na cruz. A ideia da cruz é contrária ao projeto do pecado. Quem quer subir na plataforma do poder não concorda com o esvaziamento da cruz.

A cruz é um instrumento de escárnio. Ela fala do que é vergonhoso. O seu apelo fica ressaltando o castigo merecido de um réu indigno. A cruz é o martírio do vil, é a sentença do infame, é a pena justa de quem é torpe. Nela se cravam os que ultrajavam os princípios da moral e são eliminados os desprezíveis membros da baixeza humana. Os que ficam expostos nos braços da cruz são merecedores de todo deboche. Este é o lugar da crapulagem que exige zombaria. Nenhum homem digno deve ser alvo de um espetáculo tão vexatório.

A cruz é o lugar do arruinado, do corrupto, do bandido, do canalha, do mesquinho, do perverso, do arrogante, do presunçoso, do orgulhoso, do exibido, do pecador em todas as suas nuanças. Sua mensagem significa a punição radical desta corja de infiéis que pretende ocupar o posto da mais alta importância. Usando a camuflagem mais sutil, o ser humano procura atrair atenção para os seus sentimentos de artista. No jogo do fingimento ele quer o palco. O homem não quer a cruz. Mas todo sentimento de superioridade precisa ser derrubado, e todo sentimento de inferioridade precisa ser preenchido. “Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados.”Isaías 40:04. A cruz é a patrola de Deus que faz a terraplanagem dos corações elevados e dos corações deprimidos. Ela desbasta a altivez e completa as depressões.

A vítima da cruz não sofre mais de vitimismo. Não há mais lugar para os grandes nem encosto para os rebaixados. A obra da cruz erradica os jogos manipuladores que valorizam as táticas do dominador e as chantagens do dominado. Na igreja onde a moto-niveladora da cruz passou não há mais lugar de destaque nem sintoma de coitado. Os discípulos de Jesus Cristo que trazem as marcas da cruz no coração não valorizam o êxito das montanhas nem reclamam com o isolamento dos vales. Por isso, todo o empenho do Maligno é para fazer Jesus descer da cruz. Alguém me sussurrou outro dia: Meu velho homem desceu da cruz. Mas, ele não foi crucificado com Cristo? Quando foi que Cristo desceu da cruz? Precisamos crer nas verdades da Palavra. Jesus foi tirado da cruz depois de sua morte. A cruz não é um mero estágio de tortura, é, antes, um lugar em que o sofrimento é para a morte. O produto da cruz não é o martírio, mas a morte. A dor da cruz é conseqüência, não resultado final. Jesus não desceu da cruz, porque seu objetivo era a morte do pecador, que ele representava naquele momento. Ele havia nos atraído a si mesmo, para nos fazer integrantes daquela morte e, deste modo, nos levar a morrer juntamente com ele. “Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram.” – II Coríntios 05:14 (NVI). A cruz é o atestado de óbito do miserável pecador.

O discípulo de Jesus não é aquele que meramente declara a sua morte com Cristo, mas aquele que confessa e crê realmente em sua morte na cruz juntamente com Cristo, fundamentado na Palavra de Deus. A experiência da cruz se atualiza diariamente no viver do cristão. Há uma reedição de fé a cada momento. Não se trata de simples teoria, mas da internalização desta verdade realizada pelo Espírito da verdade. Não é uma doutrina que aprendemos com a nossa mente, mas uma verdade que nos é revelada graciosamente pelo Espírito Santo. Jesus mostrou que o seu discípulo é alguém que responde com objetividade, na base da cruz, o que a Palavra de Deus afirma. Jesus dizia a todos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.” – Lucas 09:23 (NVI). A cruz do discípulo é a mesma cruz de Cristo. A cruz de Cristo é a nossa cruz. Como já vimos, a cruz não é simples meio de tortura, mas de morte. Tomar diariamente a minha cruz é reconhecer a minha morte juntamente com Cristo, como experiência de fé.

E, como dizia Santo Agostinho, a fé consiste em crermos no que não vemos; e, como recompensa, veremos aquilo em que cremos. Os observadores da crucificação de Jesus queriam que ele descesse da cruz a fim de poderem ver e depois crer. Mas a realidade espiritual tem outra versão. O povo protesta, mas Jesus contesta. A fé não se baseia na visão. Jesus mostrou a Marta, no episódio da ressuscitação de Lázaro, que as bases da fé diferem do sistema científico. Disse-lhe Jesus: “Não lhe falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?” – João 11:40 (NVI). Segundo Jesus, a fé antecede a visão. Primeiro se crê e depois se constata.

Jesus reafirmou o seu princípio de fé bíblica para o duvidoso Tomé com estas palavras precisas: “Porque você me viu, você creu? Bem-aventurados os que não viram e creram.” – João 20:29 (NVI). O gozo espiritual consiste em firmar-se de modo inabalável na certeza da verdade divina. Ninguém pode produzir uma experiência espiritual duradoura fora dos limites verdadeiros da Palavra de Deus. De acordo com Jesus, o seu discípulo é alguém que ficou marcado existencialmente com os contornos da cruz em seu caráter. “E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo.” – Lucas 14:27 (NVI). A cruz não é uma enfermidade física nem um fardo em nossa vida.

A cruz não é um sinal na testa, nem joia decorativa ou uma profunda teologia. Ela é uma experiência de fé,a porta da morte para a vida, a apólice da vitória, o título da santidade e o caminho para o trono. Como disse Paul Holdcraft, a cruz é um programa de vida e não apenas o centro da Teologia. Não basta a mitra com uma cruz desenhada nem a mensagem da cruz desgranhada, mas uma vida em que cruz desdenhada já esculpiu o caráter de Cristo. “Estou crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé do filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” – Gálatas 02:20.

Glenio Fonseca Paranaguá

A CURA PELA CRUZ

mãos-cravadas-na-cruz“Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.” 01ª Pedro 02:24.

O mundo é um grande hospital e a humanidade uma multidão de enfermos e doentes. A estatística neste caso é precisa: o gênero humano encontra-se todo contaminado e profundamente insalubre. Não há ninguém isento desta epidemia genérica. “Por que haveis de ainda ser feridos, visto que continuais em rebeldia? Toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo.” – Isaías 1:5-6. Isto não é apenas uma estimativa para Israel. Este diagnóstico cobre toda a população da terra. Somos uma raça moribunda. Em conseqüência do pecado, o espírito ficou separado de Deus, a alma tornou-se penalizada e enferma, e o corpo sujeito às doenças e indisposições. Há uma certa correlação de causa e efeito: o espírito abatido vem enfermar a alma, que acaba adoecendo o corpo. O abatimento é espiritual, a enfermidade é psíquica e a doença é física. “O espírito do homem o sustenta na enfermidade, mas o espírito abatido quem o suportará?” –  Provérbios 18:14. (Ed. Contemporânea). Tudo começa no íntimo do espírito. O espírito é o coração do ser humano. Quando o coração encontra-se independente de Deus, um grande vazio toma conta da alma e, conseqüentemente, o corpo termina sofrendo os achaques psicossomáticos. Por isso, a Bíblia sustenta a necessidade prioritária de um cuidado essencial com o coração. “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.” Provérbios 4:23. A vida sempre procede do coração. F. W. Foerster salienta, em uma de suas páginas, que certa vez, perguntaram a De Maistre se ele sabia como era o coração de um homem mau. O educador respondeu: Não sei, mas sei como é o de um homem bom – é horrível!

O homem natural é um ser espiritualmente separado de Deus, psicologicamente transtornado pelos efeitos arrogantes do pecado e sujeito a todos os males causados pelas moléstias que se manifestam no seu corpo. As doenças são, freqüentemente, resultantes dos desequilíbrios emocionais e estes, por sua vez, são conseqüências da morte espiritual. A dor é, quase sempre, fruto das enfermidades e estas, com efeito, provêem do pecado. J. Blanchard afirma: Toda enfermidade é, em última análise, resultado do pecado, mas nem sempre decorre diretamente dele. O rei Salomão, por revelação do Espírito, precisou muito bem o foco do problema: O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos.” –  Provérbios 17:22. O coração alegre é aquele que tem experimentado a salvação graciosa de Deus, em Cristo Jesus. O espírito abatido, por outro lado, causa enfermidades na alma, secando os ossos e permitindo a instalação das doenças em nossos corpos. Sabemos que a medula óssea é um dos responsáveis pela fabricação dos elementos de defesa do nosso organismo. Quando o sistema imunológico é afetado pelos efeitos universais do pecado na raça humana, sofremos profundamente com as doenças resultantes de nosso enfraquecimento.

A regeneração espiritual é a primeira providência divina para a restauração da espécie humana. Se o pecado nos separou de Deus, causando um estrago irremediável do ponto de vista do homem, só Deus pode nos salvar verdadeiramente deste estado de separação. Por isso, a cruz se tornou o centro cirúrgico da maior operação já realizada. H. C. Trumbull disse que, o Calvário mostra como os homens podem ir longe no pecado, e como Deus pode ir longe para salvá-los. A crucificação de Cristo e a nossa crucificação juntamente com Cristo se tornam a medida prioritária para a recuperação plena do ser humano. Somente os justificados pela cruz podem ser vivificados pela ressurreição. Somente os regenerados pela graça podem ser verdadeiramente curados de suas enfermidades psíquicas através dos efeitos permanentes da cruz.

A doutrina da salvação do homem pode ser vista em três fases distintas: a vivificação do espírito, promovida pelo sacrifício vicário do Cordeiro de Deus e sua ressurreição; a santificação da alma, patrocinada pelo Espírito através da vida poderosa de Cristo, e a glorificação do corpo, determinada pela ressurreição dos santos e transformação dos vivos, e seu arrebatamento. As três etapas falam da salvação em três tempos: fomos salvos da condenação do pecado pela vitória de Cristo; estamos sendo salvos do poder do pecado pela vida de Cristo, e seremos salvos da presença do pecado pela vinda de Cristo. Fomos vivificados em nosso espírito, estamos sendo santificados em nossa alma e seremos glorificados em nosso corpo. Por isso, só os regenerados pelas misericórdias de Deus podem ser realmente curados, pela graça de Cristo, de todas as suas enfermidades. A cruz que sacrificou a Cristo Jesus deixou as feridas que saram as enfermidades. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” –  Isaías 53:05. Temos aqui a garantia bíblica da cura de nossas enfermidades. Muita gente que se encontra doente em seus corpos sofre de grandes enfermidades em suas almas. S. I. McMillen afirma que, a ciência médica reconhece que emoções como medo, tristeza, inveja, ressentimento e ódio são responsáveis pela maioria de nossas doenças. Os cálculos variam de 60% a quase 100%.

As doenças são quase sempre resultantes das enfermidades. O corpo sofre os efeitos da alma. Uma mente ansiosa ou amargurada termina detonando o organismo. Emoções distorcidas acabam deformando o corpo. Por isso, os antigos latinos costumavam dizer: mens sana in corpore sano (mente sã num corpo são). Só uma mentalidade sadia pode promover uma boa saúde física. Muita gente que já foi regenerada em seu espírito continua enferma em sua alma. Muitos traumas e contusões emocionais persistem ocultas, determinando reações enfermiças. Sabemos que a alma está sendo salva pelo poder da vida de Cristo, mediante a instrumentalidade da Palavra de Deus. “Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma.” Tiago 01:21. A regeneração do espírito é um ato soberano da graça de Deus, mas a cura da alma é um processo gracioso das pisaduras de Jesus.

Quando contemplamos, pela Palavra, os efeitos poderosos do Calvário, somos atingidos em cheio no cerne de nossos problemas. O método de Deus para a cura de nossas almas se revela no íntimo, pela eficácia de Cristo crucificado. A cura interior só acontece de verdade quando consideramos a cruz em nosso interior como o instrumento que mata o ódio, a amargura, a vingança, a inveja, o medo e todos os sentimentos enfermiços da alma. Foi com esta visão que G. Campbell Morgan disse: Quem na verdade contemplou a cruz de Cristo não pode jamais falar de casos sem esperança. Mesmo aqueles que se encontram contundidos com os estigmas da crueldade e rejeitados por aqueles que deveriam ser os mais afetuosos podem ter esperança. A Bíblia mostra, sempre, um Deus que é misericordioso e sensível para com os quebrantados de espírito. “Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia.” – Salmos 103:03-04.

O Evangelho é efetivamente uma boa notícia. É o anúncio de um Deus gracioso que se interessa profundamente por um homem abatido, enfermo e doente. Deus se tornou gente por se importar com a gente que sofre com o agente da dor. Jesus Cristo é o Deus de toda a graça que regenera o pecador, santifica o regenerado, cura o santo enfermo, sara o enfermo são e restaura o homem totalmente, pelas suas pisaduras. Não estamos sustentando o curandeirismo, nem tampouco que Deus deva curar todas as nossas doenças, mas que a verdadeira cura está no poder de Cristo crucificado. Como Spurgeon, arrisco-me a dizer que a maior bênção terrena que Deus pode dar a cada um de nós é a saúde, com exceção da doença. Esta, muitas vezes, tem sido mais útil aos santos do que a saúde. Creio, como Abraham Wright, que eu posso ser abençoado por minhas doenças, enriquecido por minha pobreza e fortalecido por minha fraqueza. Mesmo assim, creio que o objetivo final da salvação é um homem consagrado no seu espírito, santificado em sua alma e saudável no seu corpo. Por isso, Cristo realizou uma salvação perfeita.

“Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer… Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas… Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.”  Isaías 53:03 e Hebreus 04:15-16.

Glenio Fonseca Paranaguá