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A CRUZ NA TESTA?

cinza“Os que passavam lançavam-lhe insultos, balançando a cabeça e dizendo: “Ah! Você que destrói o templo e o edifica em três dias, desça da cruz e salve-se a si mesmo!” Da mesma forma, os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei zombavam dele entre si, dizendo: “Salvou os outros, mas não é capaz de salvar-se a si mesmo. O Cristo, o Rei de Israel… Desça da cruz, para que vejamos e creiamos nele!” Os que foram crucificados com ele também o insultavam.” – Marcos 15:29-32(NVI).

Urutu-cruzeiro é um ofídio venenosíssimo, da família dos crotalídeos que apresenta uma mancha cruciforme na cabeça, que lhe garante este nome. O formato da cruz na fronte da serpente despertou a nossa atenção para o fato intelectual da mensagem da cruz. Ter a doutrina da cruz na cabeça não resolve nada. Muitos de nós, cristãos, falamos corretamente desta palavra da cruz, mas ela não tem qualquer significado real em nossas vidas. Uma coisa é saber a teologia da cruz, outra bem diferente, é conhecer a experiência real da cruz em nosso viver diário. A mensagem da cruz não é uma touca de dormir, mas um estilo de vida.

O veneno desta serpente não altera o seu poder mortífero pelo fato dela ostentar uma cruz em sua cabeça. Do mesmo modo, a linguagem peçonhenta da boca maledicente não sofre a menor variação com a doutrina intelectual da teologia da cruz. A cruz na testa não atesta qualquer transformação no coração. Pregar a cruz não é a mesma coisa de estar pregado na cruz. Falar sobre a cruz nada tem a ver com falar na cruz, da obra da cruz. A mensagem do cristianismo legítimo é proclamada por um crucificado. Não se trata de uma dramatização teatral, mas de uma experiência de fé genuína. Somente os que já morreram na cruz com Cristo podem falar com convicção da verdadeira vida de Cristo.

Os espectadores da crucificação de Jesus procuraram por todos os meios tirá-lo da cruz. Eles não podiam aceitar a ideia do Cristo sendo crucificado. Por isso, insultavam-no com seus discursos para fazê-lo descer da cruz. Não era possível um Cristo estigmatizado com as marcas da cruz. A lógica não pode conceber o autor da vida sendo refém da morte. Precisavam de um sinal poderoso: Desça da cruz para que vejamos e creiamos nele. Remover Jesus da cruz foi a tática mais ardilosa do inferno. Satanás promoveu a morte do infante nos tempos de Herodes e fomentou as multidões para jogar Jesus do alto do monte em Nazaré. Agora ele incentivava os assistentes do Calvário para desaconselhá-lo em permanecer na cruz. A ideia da cruz é contrária ao projeto do pecado. Quem quer subir na plataforma do poder não concorda com o esvaziamento da cruz.

A cruz é um instrumento de escárnio. Ela fala do que é vergonhoso. O seu apelo fica ressaltando o castigo merecido de um réu indigno. A cruz é o martírio do vil, é a sentença do infame, é a pena justa de quem é torpe. Nela se cravam os que ultrajavam os princípios da moral e são eliminados os desprezíveis membros da baixeza humana. Os que ficam expostos nos braços da cruz são merecedores de todo deboche. Este é o lugar da crapulagem que exige zombaria. Nenhum homem digno deve ser alvo de um espetáculo tão vexatório.

A cruz é o lugar do arruinado, do corrupto, do bandido, do canalha, do mesquinho, do perverso, do arrogante, do presunçoso, do orgulhoso, do exibido, do pecador em todas as suas nuanças. Sua mensagem significa a punição radical desta corja de infiéis que pretende ocupar o posto da mais alta importância. Usando a camuflagem mais sutil, o ser humano procura atrair atenção para os seus sentimentos de artista. No jogo do fingimento ele quer o palco. O homem não quer a cruz. Mas todo sentimento de superioridade precisa ser derrubado, e todo sentimento de inferioridade precisa ser preenchido. “Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados.”Isaías 40:04. A cruz é a patrola de Deus que faz a terraplanagem dos corações elevados e dos corações deprimidos. Ela desbasta a altivez e completa as depressões.

A vítima da cruz não sofre mais de vitimismo. Não há mais lugar para os grandes nem encosto para os rebaixados. A obra da cruz erradica os jogos manipuladores que valorizam as táticas do dominador e as chantagens do dominado. Na igreja onde a moto-niveladora da cruz passou não há mais lugar de destaque nem sintoma de coitado. Os discípulos de Jesus Cristo que trazem as marcas da cruz no coração não valorizam o êxito das montanhas nem reclamam com o isolamento dos vales. Por isso, todo o empenho do Maligno é para fazer Jesus descer da cruz. Alguém me sussurrou outro dia: Meu velho homem desceu da cruz. Mas, ele não foi crucificado com Cristo? Quando foi que Cristo desceu da cruz? Precisamos crer nas verdades da Palavra. Jesus foi tirado da cruz depois de sua morte. A cruz não é um mero estágio de tortura, é, antes, um lugar em que o sofrimento é para a morte. O produto da cruz não é o martírio, mas a morte. A dor da cruz é conseqüência, não resultado final. Jesus não desceu da cruz, porque seu objetivo era a morte do pecador, que ele representava naquele momento. Ele havia nos atraído a si mesmo, para nos fazer integrantes daquela morte e, deste modo, nos levar a morrer juntamente com ele. “Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram.” – II Coríntios 05:14 (NVI). A cruz é o atestado de óbito do miserável pecador.

O discípulo de Jesus não é aquele que meramente declara a sua morte com Cristo, mas aquele que confessa e crê realmente em sua morte na cruz juntamente com Cristo, fundamentado na Palavra de Deus. A experiência da cruz se atualiza diariamente no viver do cristão. Há uma reedição de fé a cada momento. Não se trata de simples teoria, mas da internalização desta verdade realizada pelo Espírito da verdade. Não é uma doutrina que aprendemos com a nossa mente, mas uma verdade que nos é revelada graciosamente pelo Espírito Santo. Jesus mostrou que o seu discípulo é alguém que responde com objetividade, na base da cruz, o que a Palavra de Deus afirma. Jesus dizia a todos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.” – Lucas 09:23 (NVI). A cruz do discípulo é a mesma cruz de Cristo. A cruz de Cristo é a nossa cruz. Como já vimos, a cruz não é simples meio de tortura, mas de morte. Tomar diariamente a minha cruz é reconhecer a minha morte juntamente com Cristo, como experiência de fé.

E, como dizia Santo Agostinho, a fé consiste em crermos no que não vemos; e, como recompensa, veremos aquilo em que cremos. Os observadores da crucificação de Jesus queriam que ele descesse da cruz a fim de poderem ver e depois crer. Mas a realidade espiritual tem outra versão. O povo protesta, mas Jesus contesta. A fé não se baseia na visão. Jesus mostrou a Marta, no episódio da ressuscitação de Lázaro, que as bases da fé diferem do sistema científico. Disse-lhe Jesus: “Não lhe falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?” – João 11:40 (NVI). Segundo Jesus, a fé antecede a visão. Primeiro se crê e depois se constata.

Jesus reafirmou o seu princípio de fé bíblica para o duvidoso Tomé com estas palavras precisas: “Porque você me viu, você creu? Bem-aventurados os que não viram e creram.” – João 20:29 (NVI). O gozo espiritual consiste em firmar-se de modo inabalável na certeza da verdade divina. Ninguém pode produzir uma experiência espiritual duradoura fora dos limites verdadeiros da Palavra de Deus. De acordo com Jesus, o seu discípulo é alguém que ficou marcado existencialmente com os contornos da cruz em seu caráter. “E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo.” – Lucas 14:27 (NVI). A cruz não é uma enfermidade física nem um fardo em nossa vida.

A cruz não é um sinal na testa, nem joia decorativa ou uma profunda teologia. Ela é uma experiência de fé,a porta da morte para a vida, a apólice da vitória, o título da santidade e o caminho para o trono. Como disse Paul Holdcraft, a cruz é um programa de vida e não apenas o centro da Teologia. Não basta a mitra com uma cruz desenhada nem a mensagem da cruz desgranhada, mas uma vida em que cruz desdenhada já esculpiu o caráter de Cristo. “Estou crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé do filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” – Gálatas 02:20.

Glenio Fonseca Paranaguá

A CURA PELA CRUZ

mãos-cravadas-na-cruz“Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.” 01ª Pedro 02:24.

O mundo é um grande hospital e a humanidade uma multidão de enfermos e doentes. A estatística neste caso é precisa: o gênero humano encontra-se todo contaminado e profundamente insalubre. Não há ninguém isento desta epidemia genérica. “Por que haveis de ainda ser feridos, visto que continuais em rebeldia? Toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo.” – Isaías 1:5-6. Isto não é apenas uma estimativa para Israel. Este diagnóstico cobre toda a população da terra. Somos uma raça moribunda. Em conseqüência do pecado, o espírito ficou separado de Deus, a alma tornou-se penalizada e enferma, e o corpo sujeito às doenças e indisposições. Há uma certa correlação de causa e efeito: o espírito abatido vem enfermar a alma, que acaba adoecendo o corpo. O abatimento é espiritual, a enfermidade é psíquica e a doença é física. “O espírito do homem o sustenta na enfermidade, mas o espírito abatido quem o suportará?” –  Provérbios 18:14. (Ed. Contemporânea). Tudo começa no íntimo do espírito. O espírito é o coração do ser humano. Quando o coração encontra-se independente de Deus, um grande vazio toma conta da alma e, conseqüentemente, o corpo termina sofrendo os achaques psicossomáticos. Por isso, a Bíblia sustenta a necessidade prioritária de um cuidado essencial com o coração. “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.” Provérbios 4:23. A vida sempre procede do coração. F. W. Foerster salienta, em uma de suas páginas, que certa vez, perguntaram a De Maistre se ele sabia como era o coração de um homem mau. O educador respondeu: Não sei, mas sei como é o de um homem bom – é horrível!

O homem natural é um ser espiritualmente separado de Deus, psicologicamente transtornado pelos efeitos arrogantes do pecado e sujeito a todos os males causados pelas moléstias que se manifestam no seu corpo. As doenças são, freqüentemente, resultantes dos desequilíbrios emocionais e estes, por sua vez, são conseqüências da morte espiritual. A dor é, quase sempre, fruto das enfermidades e estas, com efeito, provêem do pecado. J. Blanchard afirma: Toda enfermidade é, em última análise, resultado do pecado, mas nem sempre decorre diretamente dele. O rei Salomão, por revelação do Espírito, precisou muito bem o foco do problema: O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos.” –  Provérbios 17:22. O coração alegre é aquele que tem experimentado a salvação graciosa de Deus, em Cristo Jesus. O espírito abatido, por outro lado, causa enfermidades na alma, secando os ossos e permitindo a instalação das doenças em nossos corpos. Sabemos que a medula óssea é um dos responsáveis pela fabricação dos elementos de defesa do nosso organismo. Quando o sistema imunológico é afetado pelos efeitos universais do pecado na raça humana, sofremos profundamente com as doenças resultantes de nosso enfraquecimento.

A regeneração espiritual é a primeira providência divina para a restauração da espécie humana. Se o pecado nos separou de Deus, causando um estrago irremediável do ponto de vista do homem, só Deus pode nos salvar verdadeiramente deste estado de separação. Por isso, a cruz se tornou o centro cirúrgico da maior operação já realizada. H. C. Trumbull disse que, o Calvário mostra como os homens podem ir longe no pecado, e como Deus pode ir longe para salvá-los. A crucificação de Cristo e a nossa crucificação juntamente com Cristo se tornam a medida prioritária para a recuperação plena do ser humano. Somente os justificados pela cruz podem ser vivificados pela ressurreição. Somente os regenerados pela graça podem ser verdadeiramente curados de suas enfermidades psíquicas através dos efeitos permanentes da cruz.

A doutrina da salvação do homem pode ser vista em três fases distintas: a vivificação do espírito, promovida pelo sacrifício vicário do Cordeiro de Deus e sua ressurreição; a santificação da alma, patrocinada pelo Espírito através da vida poderosa de Cristo, e a glorificação do corpo, determinada pela ressurreição dos santos e transformação dos vivos, e seu arrebatamento. As três etapas falam da salvação em três tempos: fomos salvos da condenação do pecado pela vitória de Cristo; estamos sendo salvos do poder do pecado pela vida de Cristo, e seremos salvos da presença do pecado pela vinda de Cristo. Fomos vivificados em nosso espírito, estamos sendo santificados em nossa alma e seremos glorificados em nosso corpo. Por isso, só os regenerados pelas misericórdias de Deus podem ser realmente curados, pela graça de Cristo, de todas as suas enfermidades. A cruz que sacrificou a Cristo Jesus deixou as feridas que saram as enfermidades. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” –  Isaías 53:05. Temos aqui a garantia bíblica da cura de nossas enfermidades. Muita gente que se encontra doente em seus corpos sofre de grandes enfermidades em suas almas. S. I. McMillen afirma que, a ciência médica reconhece que emoções como medo, tristeza, inveja, ressentimento e ódio são responsáveis pela maioria de nossas doenças. Os cálculos variam de 60% a quase 100%.

As doenças são quase sempre resultantes das enfermidades. O corpo sofre os efeitos da alma. Uma mente ansiosa ou amargurada termina detonando o organismo. Emoções distorcidas acabam deformando o corpo. Por isso, os antigos latinos costumavam dizer: mens sana in corpore sano (mente sã num corpo são). Só uma mentalidade sadia pode promover uma boa saúde física. Muita gente que já foi regenerada em seu espírito continua enferma em sua alma. Muitos traumas e contusões emocionais persistem ocultas, determinando reações enfermiças. Sabemos que a alma está sendo salva pelo poder da vida de Cristo, mediante a instrumentalidade da Palavra de Deus. “Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma.” Tiago 01:21. A regeneração do espírito é um ato soberano da graça de Deus, mas a cura da alma é um processo gracioso das pisaduras de Jesus.

Quando contemplamos, pela Palavra, os efeitos poderosos do Calvário, somos atingidos em cheio no cerne de nossos problemas. O método de Deus para a cura de nossas almas se revela no íntimo, pela eficácia de Cristo crucificado. A cura interior só acontece de verdade quando consideramos a cruz em nosso interior como o instrumento que mata o ódio, a amargura, a vingança, a inveja, o medo e todos os sentimentos enfermiços da alma. Foi com esta visão que G. Campbell Morgan disse: Quem na verdade contemplou a cruz de Cristo não pode jamais falar de casos sem esperança. Mesmo aqueles que se encontram contundidos com os estigmas da crueldade e rejeitados por aqueles que deveriam ser os mais afetuosos podem ter esperança. A Bíblia mostra, sempre, um Deus que é misericordioso e sensível para com os quebrantados de espírito. “Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia.” – Salmos 103:03-04.

O Evangelho é efetivamente uma boa notícia. É o anúncio de um Deus gracioso que se interessa profundamente por um homem abatido, enfermo e doente. Deus se tornou gente por se importar com a gente que sofre com o agente da dor. Jesus Cristo é o Deus de toda a graça que regenera o pecador, santifica o regenerado, cura o santo enfermo, sara o enfermo são e restaura o homem totalmente, pelas suas pisaduras. Não estamos sustentando o curandeirismo, nem tampouco que Deus deva curar todas as nossas doenças, mas que a verdadeira cura está no poder de Cristo crucificado. Como Spurgeon, arrisco-me a dizer que a maior bênção terrena que Deus pode dar a cada um de nós é a saúde, com exceção da doença. Esta, muitas vezes, tem sido mais útil aos santos do que a saúde. Creio, como Abraham Wright, que eu posso ser abençoado por minhas doenças, enriquecido por minha pobreza e fortalecido por minha fraqueza. Mesmo assim, creio que o objetivo final da salvação é um homem consagrado no seu espírito, santificado em sua alma e saudável no seu corpo. Por isso, Cristo realizou uma salvação perfeita.

“Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer… Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas… Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.”  Isaías 53:03 e Hebreus 04:15-16.

Glenio Fonseca Paranaguá

COMO ESTÁ SEU CORAÇÃO?

jovem_13 “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu!” (Salmo 19:14).

“E, tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade. Da descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus” (Atos 13:22, 23).

Primeiro

Temos aqui duas passagens relacionadas com Davi. Salmo 19:14 é sua oração e Atos 13:22, 23 fala dele como homem. Em sua oração Davi menciona as palavras de sua boca e o meditar de seu coração. Procura fazer com que seus pensamentos íntimos e suas palavras externas sejam aceitáveis a Deus; pois as palavras da boca são a expressão do pensamento.

Donde se depreende que o principal problema é o coração. A questão central não é se as palavras estejam corretas ou não, nem é também a correção da atitude externa. O problema verdadeiro jaz na intenção do coração. O pensamento e a intenção do coração é a questão que não deve ser negligenciada.

Por este motivo Davi ora para que o meditar de seu coração seja aceitável a Deus assim como as palavras de sua boca. Sua oração é que Deus aceite seu desejo interior. Daí Paulo testificar ser Davi um homem segundo o coração de Deus (Atos 13).

Que tipo de pessoa é o homem segundo o coração de Deus? É aquele que permite que Deus lhe toque o coração. Se a pessoa não permitir que Deus lhe toque o coração, mui dificilmente será um homem segundo o coração de Deus.

Muitos cristãos têm a tendência de perguntar: Não estou agindo corretamente ao fazer isto ou aquilo? Não é direito falar isto? Minha expressão não está correta? Entretanto a questão essencial não está no seu falar ou expressar a coisa certa ou não, mas na raiz do seu falar, expressar ou agir.

Embora a pessoa externamente seja correta, ainda pode ter problemas com o coração. O interesse de Deus e seu toque estão relacionados com o coração do homem. É por este motivo que ele permite que muitas coisas aconteçam na vida de seus filhos. Ele usa estas coisas para tocar o seu coração e revelar o que aí se encontra.

Segundo

Observamos na Bíblia, que Davi viaja na vida pelo caminho da cruz, e a vida que ele vive é a vida da cruz. O Novo Testamento inicia com duas pessoas: uma é Abraão e a outra, Davi (veja Mateus 1:1, 3, 6). Isto é porque dois homens trouxeram o Senhor Jesus. Trouxeram Deus dos céus à terra.

Deus precisa encontrar pessoas como estas antes de achar um meio de vir dos céus à terra. Sabemos que Abraão é o pai da fé. Por toda a vida trilhou no caminho da fé. Somente este caminho pode trazer Deus à terra.

Por outro lado, Davi andou na vida pelo caminho da cruz. Sua vida é uma vida de cruz. Ele não somente traz Deus aos homens, mas também faz com que Deus dirija os homens. Se você vive pela fé, tem a maneira de trazer Deus ao meio dos homens; se você vive na cruz fará com que Deus reine sobre os homens.

Se os filhos de Deus estivessem mais dispostos a seguir o caminho da cruz e a levar a cruz, Deus, sem dúvida, teria mais domínio sobre os homens. A menos que você viva a vida de cruz, Deus não poderá reinar sobre você. A feição especial da vida de Davi pode ser vista em seu trilhar na estrada da cruz.

Terceiro

O que Davi encontrou na vida foi um pouco estranho, mas todos esses acontecimentos revelaram o estado de seu coração. Primeiro, Davi era desprezado por sua própria família. Quando Deus enviou Samuel a ungir um dos filhos de Jessé rei sobre Israel, Jessé mandou chamar os seus filhos mas negligenciou em chamar Davi.

Entretanto o coração deste jovem era correto, pois não perdeu o relacionamento adequado por causa de tal negligência. Deus disse a Samuel: “O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (1 Samuel 16:7b).

O coração de Davi era aceitável a Deus, de modo que foi escolhido e usado por ele. Depois de matar a Golias, Deus o colocou numa situação peculiar, pois as mulheres de Israel cantaram: “Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares” (1 Samuel 18:7b). Com respeito a estas duas cláusulas, veremos que uma tinha o propósito de testar a Davi e a outra era para provar Saul.

Diz-se em Provérbios 27 que “o homem é provado pelos louvores que recebe” (v. 21). Quando as pessoas o elogiam demais, observe atentamente a fim de ver se você fica orgulhoso; ou quando os elogios são menos do que você merece, fica magoado? Que efeito teve as declarações das mulheres israelitas no coração de Davi e de Saul?

Davi não se deixou impressionar pela aclamação: “Davi feriu os seus dez milhares”; Saul, entretanto, indignou-se muito com a declaração de ter morto somente os seus milhares. É óbvio que o coração ciumento de Saul sofreu muito (1 Samuel 18:6-19).

Suponhamos que você e outro irmão façam alguma coisa juntos. Qual será sua reação se alguém lhe disser que o outro irmão fez um excelente trabalho e não mencionar o seu nome? Você, no mínimo, irá se sentir magoado e um tanto triste. Esse incômodo e tristeza provam que você não está totalmente limpo.

Você não confessa a si mesmo repetidamente que fez tal coisa para Deus e não para o homem? No entanto o louvor que a outra pessoa recebeu lhe sacode o coração e expõe a sujeira interior. Compreendamos que muitas das situações em que nos encontramos — especialmente as atitudes dos que estão ao nosso redor — provam o nosso coração.

Depois de matar Golias, Davi tornou-se o herói de Israel, e então foi perseguido por Saul. Durante este longo período de provação ele submeteu-se à mão de Deus e não ousou fazer nada a fim de contornar a situação.

Assim evidenciam-se a pureza e a retidão do coração de Davi. Depois de se tornar rei, Davi enfrentou sérias tribulações por causa de seu grande fracasso Seu próprio filho procurou tirar-lhe a vida e Simei amaldiçoando-o jogava-lhe pedras. Qual foi a reação de Davi para com Simei? Novamente, seu coração era claro como cristal.

Disse Davi “pois se o SENHOR lhe disse: Amaldiçoa a Davi” (veja 2 Samuel 16:5-12). Ele esperava na misericórdia de Deus. Oh, que não pensemos que tudo o que acontece em nossa vida seja para nossa perda. Por um lado, é bem verdade que se nosso coração não estiver certo sofreremos perda; mas por outro lado, se nosso coração estiver certo, seremos grandemente beneficiados, pois todas estas circunstâncias têm o objetivo de revelar o que nos vai no coração. A verdadeira condição do coração de Davi é revelada mediante as provações de uma vida vivida na cruz.

Quarto

Os filhos de Deus, pois, devem não somente ter cuidado com seu falar e com sua atitude; mais ainda, devem ter cuidado com o pensamento e intenção de seus corações. Muitas vezes nossa expressão externa não necessariamente revela o estado interior.

Na maioria das vezes é nosso sentimento interior que trai o verdadeiro estado de nosso coração. Quão fútil é simplesmente guardar os nossos lábios. Se nosso coração não estiver certo, mais cedo ou mais tarde, será expresso abertamente — e, muitas vezes, quando menos esperamos.

Um exemplo disto seria as palavras ociosas que proferimos a respeito dos outros. Quanto mais nosso coração se estender para Deus e quanto mais puro ele for, tanto menos serão as palavras ociosas proferidas por nós. Todas as vezes que fuxicamos ou murmuramos contra alguém traímos alguma irregularidade em nosso coração.

Se o coração da pessoa fosse devotado totalmente para Deus ela não diria palavras ociosas contra os outros. Um irmão disse certa vez: “Se um irmãozinho peca contra mim a esse posso perdoar; mas se um irmão grande peca contra mim, a esse não posso perdoar.”

Outro irmão que o ouviu dizer isto olhou para o peito deste irmão e sacudiu a cabeça várias vezes. O que ele queria dizer com este gesto era: “Seu coração! Seu coração! Ao perdoar um irmãozinho mas não perdoar um irmão grande, você expõe o que lhe vai no coração. O fato de um irmãozinho pecar contra você e ser perdoado não mostra de modo nenhum o verdadeiro estado do seu coração; mas ao recusar-se a perdoar um irmão grande que peca contra você, isso realmente revela o que lhe vai no coração.”

Por meio deste incidente o coração não perdoador daquele irmão foi revelado. Que possamos ver que algo pequeno pode não ser queimado por um único palito de fósforo mas será totalmente consumido numa fornalha de fogo. Isto mostra que tal coisa pode ser queimada.

Usando a ilustração, um irmãozinho não podia testar o coração daquele irmão, mas um irmão grande foi usado para expor o seu verdadeiro estado interior. Se nosso coração estiver correto, não seremos sacudidos por ninguém, pois olhamos somente para Deus.

Davi provou ser um homem segundo o coração de Deus porque onde quer que o Senhor o colocava, seu coração se conservava em relacionamento direto com Deus e não com os homens. Davi aceitava tudo das mãos de Deus e tentava ver as coisas da perspectiva dele. Permita-me repetir, Deus usa as circunstâncias a fim de revelar nosso coração. Que possamos, portanto, orar: “Oh, Senhor, que as palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença.”

(Extraído do livro “O mensageiro da cruz“, de Watchman Nee).

Watchman Nee (1903-1972)

Créditos pela publicação: Clássicos Blog